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Células Tronco: Novas perspectivas no caminho para a cura

Recentemente acompanhamos uma série de publicações sobre transplantes de pâncreas, implantes de células beta além de, mais recentemente, a abordagem sobre a utilização de células tronco no transplante de pacientes diabéticos do tipo 1. Sem dúvida, esta provavelmente será a grande esperança no caminho para a cura do diabetes.

Nesta entrevista procuramos, mais uma vez, esclarecer nossos leitores sobre este tema e, para melhor informar, consultamos o Professor Dr. Milton César Foss, da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto em São Paulo, sede de uma das mais avançadas pesquisas neste segmento.

Antes de darmos início à entrevista, achamos oportuno citar a recomendação da Sociedade Brasileira de Diabetes, SBD, órgão que reúne os mais importantes profissionais de saúde desta área que em seu site www.diabetes.org.br publica:

“Apesar da divulgação da grande imprensa sobre a cura de diabetes tipo 1, a Sociedade Brasileira de Diabetes recomenda cautela com esta informação. Isso porque o transplante de células do pâncreas não é um procedimento novo e já é utilizado em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil. Segundo o conselho científico do site da SBD, as pesquisas utilizadas pelos cientistas britânicos da Kings College Hospital são semelhantes ou variantes do protocolo de Edmonton. Um trabalho que durou quatro anos e transplantou 36 pacientes, sendo que 19 não tiveram mais necessidade de usar insulina após um ano.

Contudo, os organizadores do estudo disseram que os resultados não significavam a cura, mas um método para ser utilizado em pessoas com diabetes do tipo 1, que apresentam dificuldades de controle e alta instabilidade*.

Em junho de 2004, por exemplo, a revista médica Transplantation publicou o caso da equipe do Dr. Freddy Goldberg Eliaschewitz, do Hospital Albert Einstein de São Paulo. Assim como os britânicos, os pesquisadores brasileiros também obtiveram células pancreáticas originadas de cadáveres. A técnica foi utilizada em uma mulher de 45 anos, diagnosticada aos 20 anos de idade com diabetes tipo 1, que apresentava hipoglicemias severas e grande instabilidade metabólica.

Os detalhes das infusões e os resultados obtidos foram veiculados na época da publicação, na coluna Diabetes Hoje**. Com esses dados, a entidade faz a seguinte observação sobre o transplante: “Na maioria das vezes o transplante diminui a dose de insulina, mas raramente as pessoas ficam totalmente sem necessidade do uso do medicamento. É importante lembrar que a técnica exige 3 a 4 pâncreas de cadáveres e certamente não poderá ser utilizada para um grande número de pessoas e necessita ainda de muitos aperfeiçoamentos, principalmente das drogas imunossupressoras”.

Entrevista:

Jornal Dia a Dia: Inicialmente, como definir células tronco?
Prof. Dr. Milton C. Foss: Células tronco são também conhecidas como células mãe ou células progenitoras. São assim chamadas porque apresentam duas propriedades básicas, a capacidade de se dividir indefinidamente produzindo uma população de células idênticas e a capacidade de diferenciarem-se em células de outras linhagens com características diversas das células mãe.

JDD: Como obter células tronco para utilização em pesquisas?
MCF: O local clássico e mais estudado onde se pode evidenciar a presença das células tronco é o embrião. Vale ressaltar que, a partir de uma única célula embrionária, desenvolve-se o organismo adulto completo, composto de inúmeros tecidos. Sabe-se que as células tronco também são encontradas no cordão umbilical, placenta e órgãos adultos, como o pâncreas, o fígado, o baço e a medula óssea. Todas essas células são atualmente alvo universal de pesquisas.

JDD: Que se espera de seu uso para pacientes com diabetes mellitus tipo 1 ou tipo 2?
MCF: O uso principal dessas células destina-se ao tratamento do diabetes mellitus tipo 1 onde há uma destruição auto imune das células pancreáticas produtoras de insulina. O principal objetivo da utilização de células tronco no diabetes tipo 1 é a possibilidade de manter os pacientes sob bom controle da glicemia, sem necessidade de aplicações diárias de insulina.

No caso do diabetes mellitus tipo 2, o principal defeito está em que a insulina produzida pelo organismo não consegue atuar convenientemente nas células do organismo, promovendo a entrada da glicose para o interior das células. O principal fator precipitante do diabetes tipo 2 no ser humano é a obesidade. Portanto, o tratamento mais importante e mais eficaz consiste, e sempre consistirá, na prevenção. Isto se alcança por meio da adoção de hábitos de vida saudáveis, como alimentação adequada e atividade física regular.

JDD: Quais pacientes estão sendo estudados na FMRP- USP: os já diabéticos ou os pré-diabéticos?
MCF: Estão sendo estudados indivíduos diabéticos tipo 1 com no máximo 6 semanas de diagnóstico, recém diagnosticados portanto e indivíduos com diabetes mellitus tipo 1, independente da data do diagnóstico, desde que estejam em fase de lua-de-mel, ou sejam, aqueles que necessitam doses bastante baixas de insulina para atingir o bom controle glicêmico.

JDD: São muitos no mundo os centros de pesquisa envolvidos nesse tipo de estudo?
MCF: Atualmente, os países que estão se utilizando terapias com células tronco em diabéticos são o Brasil, no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto - USP e a Argentina. Entretanto, estudos promissores em animais vêm sendo realizados em outras partes do mundo.

JDD: Do ponto de vista dos pacientes diabéticos, é possível se estimar o tempo para que a utilização prática desses estudos seja viável?
MCF: Para se validar estudos científicos em seres humanos, para se avaliar a eficácia e a segurança de alguma nova terapia proposta, são necessários anos de investigação. É certo que as expectativas em torno da terapia com células tronco são imensas. Entretanto, tudo precisa ser amplamente testado e comparado com as terapias convencionais para que se avalie se os custos e riscos associados a uma nova modalidade terapêutica realmente valem a pena.

Só o tempo e os resultados dirão se isto acontecerá.

*Mais detalhes em - http://www.diabetes.org.br/reportagens_online **http://www.diabetes.org.br/diabeteshoje

O professor Doutor Milton César Foss é médico endocrinologista e diabetólogo, e professor da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto

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